Assisti e vivi O Diabo Veste Prada 1 e 2
Há exatos 20 anos, estava sentado na sala com a minha avó - que foi uma das minhas maiores influencias para escolher a moda como área para trabalhar - para assistir a O Diabo Veste Prada (2006); e, com 18 anos, eu ainda não tinha experiência de vida o suficiente para ver as supostas vilã e mocinha do filme, como ela enxergou. E, naquela ocasião, minha avó me fez olhar para Miranda e Andy, de uma maneira que, só anos depois, com uma certa mudança da sociedade, outras pessoas começaram a discutir e questionar diferentes pontos de vista sobre as personagens.
Miranda Priestley, nunca foi uma vilã da Marvel - como sua própria interprete Meryl Streep a defendeu recentemente. Assim como, Andrea (Anne Hathaway) não era tão inocente a respeito das escolhas que estava fazendo.
Levei aquele filme e personagens de 2006 como ilustração para a vida profissional que gostaria de ter, completamente influenciado por uma romantização de uma história baseada em um livro, mas inspirada em um drama real, completamente distante da minha realidade, naquela época.
Queria trabalhar com moda, sonhava viver situações parecidas, usar roupas caras, viajar e, de algum modo, eu consegui construir isso, mas, no meu próprio caminho. Até que, há 5 anos atrás, trabalhar e viver nesse meio, não estava sendo mais compatível com o que eu queria para a minha vida no geral.
Deixei a moda, hoje trabalho com literaura e cinema, vivo em uma cidade menos globalizada, escrevendo esse texto em meu escritório todo branco, a altura do espaço de Miranda no Elias Clarke. E, pasmem, o texto está sendo publicado em minha própria revista eletrônica.
Servi um café frio em uma xícara - não um Starbucks -, estou de pijamas, um dos meus cachorros está deitado ao pé da mesa e, ao terminar esse artigo, irei tirar uma calça branca da Nike - peça exclusiva da época em que trabalhava com moda - do molho, que deixei pela manhã. Uma rotina menos glamurosa do que a que eu almejava após assistir ao primeiro filme, mas, condizente com tudo o que vivi e aprendi durante essas duas décadas sobre a vida, escolhas, consequências e carreira.
Cheguei a estagiar na Vogue, fotografei marcas grandes, passei pelo MASP e pelo varejo de luxo. Tomei muitos starbucks, usei muita grife, viajei, conheci gente interessante, mas, talvez, o primeiro filme tenha dado apenas uma mostra do que você renuncia, e, as consequências das escolhas para você se manter nesse mundo.
Como a Andy, em O Diabo veste Prada 2, não perdi a elegância - apenas deixei de achar necessário me montar. E como a Miranda - também no segundo filme - sigo firme acreditando que o que é construido com uma base muito solidificada, colocando a arte em primeiro lugar (palavras da Miranda em um dos díalogos do segundo filme) sempre irá prevalecer, ainda que meia dúzia de bilionários acredite que o dinheiro esteja acima de tudo.
A própria moda sempre está nos provando - a cada temporada de desfiles - que, o clássico, a beleza e arte, sempre vende e prevalecerá.
O Diabo veste Prada 2 é literalmente uma continuação. Uma continuação da vida real. Mas não só do contexto da moda, mas, sobre tudo o que estamos vivendo. Do politicamente correto, dos absurdos que realmente não podemos mais romantizar, da velocidade da comunicação, do descartável e, do lucro como valor acima de tudo.
E, é, também, sobre o jornalismo em geral. Não somente sobre um setor que muitos consideram fútil, mas se esquecem de que em um mundo onde imagem chega primeiro, todos - sem excessão - usam o trabalho de milhares de pessoas que ficam discutindo a diferença de tons de azul dentro de uma sala apertada, em algum escritório em um arranha-céu por aí.
O segundo filme é cheio de easter egg, muitos risos, fugurino interessane e, muita emoção, sem transformar os personagens do primeiro filme, em algo que talvez nem eles quisessem ser. Temos uma Miranda comedida, porque tem que ser. Temos uma Andrea um pouco mais segura, porque ela entendeu que não é uma mocinha. E, todos os outros que vieram do primeiro filme, mostram que todos nós não precisamos nos transformar 100%, porque isso é irreal. Mas, podemos crescer, como aconteceu comigo, dentro do jovem de 18 anos que viu o primeiro filme, e sonhava com aquele mundo.
Hoje, esse sonho é real. Não trabalho para ninguém, não preciso correr para pegar um café, nem das roupas chics para convencer o outro de que sou bom no que faço; mas, sei que, assim como para Miranda, que segue forte e se superando diante das transformações, o mundo vai te chacoalhar sempre, e você precisa estar preparado para ele e, precisa estar seguro como agora, Andrea está; de que você é capaz de seguir com mudanças, sem perder o que realmente tem valor.
Termino esse texto - que talvez seja o último - desse lindo escritório branco, porque, em poucos dias, me mudo dessa casa, rumo a novas mudanças, mas sem esquecer que aquele jovem de 18 anos que assistiu a O Diabo Veste Prada com a avó, ainda está aqui, de algum jeito. E, as mudanças que vierem, sempre irão precisar de um novo de resgate da essência.
texto e ilustração: Rônulo André Álvares