O Paradoxo da Mona Lisa

Mona Lisa, a obra de arte mais famosa do mundo. Segundo algumas teorias, a mulher retratada em tela, talvez existiu. No século atual, exageradamente cultuada, sendo mais fotografada que aquela que um dia foi considerada a sua antecessora no posto - em uma época onde não haviam redes sociais -, fato esse, que também a levou à ruína: Princesa Diana. 

Bela - ainda que todos não concordem - possui mais de 500 anos, mas mantém-se jovem, intacta, sem sofrer  com as ações do tempo. Seu valor é incalculável, quem detém sua guarda, definiu que é quase impossível precificá-la, até mesmo para contratar um seguro - já que foi sequestrada algumas vezes. Em média, 20 mil pessoas se acotovelam diariamente pra fotográ-la. 

Mas Mona Lisa não se move, não abre o sorriso, não faz nada de diferente do que as pessoas esperam dela. Está há 500 anos estagnada. Na mesma posição. Sem acompanhar as mudanças no mundo ou usufruir delas. Nunca sai do mesmo ambiente, passa as noite no escuro e, os seus colegas com quem divide o espaço, mal olham em sua direção. É proíbida de sair do lugar onde vive nos últimos anos, desde o dia em que voltou do seu último cativeiro.

Iluminada, aplaudida, fotogafada, admirada e presa atrás de um pedaço de vidro à prova de balas e reagentes químicos. Países ainda discutem a quem de fato ela pertence e, lutam para que um dia possa voltar para a sua terra natal. Já lidou com guerras, sequestros, saqueamento e danificações. Foi vendida, roubada, doada, jogada fora e escondida embaixo da cama de um estranho qualquer, por muitos anos. Porém, nada disso foi o suficiente para usufruir de uma liberdade. O preço que paga pela admiração do mundo inteiro, é permanecer prisioneira daqueles que a admiram. 

Se Mona Lisa fosse humana nos tempos atuais, quando mulheres adquiriram direitos que antes lhes foram negados, Mona Lisa poderia casar, ter filhos, ser modelo, dançarina, posar nua, permanecer solteira, se envolver com outra mulher, ser motorista de ônibus, ou morar em uma casinha de palha em uma praia distante. 

E o grande paradoxo nisso, é que pessoas livres que podem fazer o que Mona Lisa não pode, enfretam filas demoradas, ingressos caros, disputam espaço em uma sala para fotografar uma imagem que, se quer,conseguem admirar, porque estão mais preocupados com suas próprias prisões nas telas dos seus celulares. Mona Lisa  e seus admiradores não tem tantas diferenças assim. Ambos estão presos, vivendo uma vida de aparências e impressões, onde a principal diferença entre eles, é que a suposta modelo italiana não têm escolha. Já nós, somos livres pra viver, mas nos aprisionamos no fascínio por aquilo que não vivemos. Incluindo eu, que deveria estar brincando com meus cachorros, ao invés de escrever reflexões com a ambição de mudar um mundo que não quer mudar. Afinal de contas, como costumo dizer: A ignorância é afrodisíaca



Texto e ilustração: Rômulo André Álvares

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