Além do Deslizar: verdades incômodas e fascinantes sobre o amor na era dos aplicativos - Antonello Iona

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COLUNA Diante do Espelho por Antonello Iona

Além do deslizar se esconde um território curioso - no meio do caminho entre sociologia, psicologia e um toque de comédia romântica digital. Tudo começa quase sempre da mesma forma: uma pausa, a luz azul do smartphone iluminando o rosto, e aquele gesto que já se tornou quase automático - o polegar deslizando para a direita ou para a esquerda.



Nos últimos vinte anos, esse movimento, agora familiar, reescreveu as coordenadas de nossa geografia afetiva. O encontro não acontece mais apenas em lugares físicos: o balcão de um bar, a mesa de um escritório, o círculo de amigos, mas, também, nos espaços imperceptíveis e abstratos do silício e dos algoritmos.

E, ainda assim, a revolução não diz respeito apenas ao lugar do encontro; ela transformou profundamente a própria matéria das relações e a percepção que temos de nós mesmos. Em uma era de hiperconexão, vivemos um paradoxo fascinante: a tecnologia que promete nos aproximar, parece, muitas vezes, tornar a verdadeira conexão humana mais evasiva. Assim, enquanto deslizamos perfis como se fossem capítulos de um romance infinito, a pergunta permanece: o que significa, de fato, olhar além da tela?

Para entender essa transformação, alguns analistas sociais recorrem à ideia de “amor líquido”, conceito usado para descrever a condição afetiva da modernidade. Em vez de vínculos sólidos e estáveis - típicos de outras épocas - os relacionamentos contemporâneos tendem a ser mais fluidos, móveis e reversíveis. Os aplicativos de encontros parecem representar perfeitamente essa dinâmica: oferecem a velocidade da conexão, mas também o conforto da desconexão imediata.

Outras análises sociológicas sugerem que a modernidade ampliou nossa liberdade afetiva, mas ao mesmo tempo, aumentou a instabilidade dos vínculos. Desejamos proximidade, mas tememos a dependência e a perda de autonomia.

Nesse cenário surge outra observação recorrente nas pesquisas sobre relacionamentos contemporâneos: hoje muitos vínculos se sustentam menos em estruturas externas - como família, religião ou convenções sociais - e, mais na negociação constante entre indivíduos autônomos. Assim, da dimensão relativamente previsível do encontro tradicional - baseada em proximidade social, hábitos comuns e círculos de convivência - passamos a um universo de possibilidades praticamente infinitas que os aplicativos tornam acessíveis. Uma liberdade enorme, quase vertiginosa. Mas também, uma liberdade que traz consigo uma ansiedade silenciosa: o pêndulo emocional oscila constantemente entre o desejo profundo de intimidade e o receio de que um compromisso muito sério possa limitar nossa independência. Em outras palavras, queremos alguém ao nosso lado, mas com a opção “desfazer o match” sempre à mão.

Há também outra verdade - menos romântica e talvez mais honesta: muitas vezes abrimos um aplicativo de encontros, não para encontrar alguém, mas para nos procurar no reflexo do olhar do outro. A busca por parceiros pode facilmente se transformar em uma forma de validação pessoal. Plataformas digitais funcionam frequentemente como sistemas de micro-recompensas: cada curtida, cada match e cada notificação ativa pequenos mecanismos de gratificação que reforçam nossa percepção de visibilidade social. Nesse contexto, o match deixa de ser apenas o início de um possível encontro, e se transforma em combustível simbólico para a autoestima. O aplicativo acaba funcionando como uma espécie de sala de espera do ego, onde buscamos pequenas confirmações de nossa atratividade.

Não é por acaso que muitos usuários abrem o aplicativo com a mesma curiosidade com que se verifica a previsão do tempo - não porque exista necessariamente um interesse concreto no que acontece lá fora, mas para perceber como anda a própria autoestima naquele dia. O próprio perfil em app de encontros é ao mesmo tempo um espelho de si e uma operação de marketing pessoal: fotos escolhidas a dedo, bio intrigante e interesses curados para parecer interessante em poucos segundos. Em essência, cada um se torna o diretor criativo de sua própria identidade digital. E se na vida real somos complexos, contraditórios e cheios de nuances, no perfil nos tornamos uma versão elegante e compacta de nós mesmos - uma espécie de trailer cinematográfico da própria personalidade.

Vem à mente a famosa frase de Andy Warhol, no final dos anos 1960: “No futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos”. Só que em 2026 esses minutos se tornaram segundos.Depois vem a promessa mais sedutora dos aplicativos: a abundância. Um catálogo potencialmente infinito de possíveis parceiros, todos a poucos centímetros do polegar. Mas justamente essa abundância pode se transformar em uma armadilha.

Diversos estudos em psicologia da decisão, mostram que, quando as opções se multiplicam demais, nossa capacidade de escolher diminui e a satisfação com a escolha final tende a cair. No universo do dating online, isso se traduz em uma sensação sutil mas persistente: a impressão de que, logo após o próximo deslizar, talvez exista um perfil ainda melhor. É o clássico cenário do buffet infinito: diante de cem sobremesas acabamos provando muitas, e apreciando poucas, de verdade. O resultado pode ser uma forma de insatisfação permanente que torna mais difícil investir emocionalmente na pessoa à nossa frente e transformar o encontro humano em uma navegação contínua entre possibilidades potencialmente superiores.

Ainda assim, seria um erro reduzir os aplicativos de encontros a meras máquinas de narcisismo contemporâneo. Para muitas pessoas - especialmente nas comunidades LGBTQ+ - essas plataformas representaram algo muito mais importante: um espaço de reconhecimento e liberdade. Diversas análises sociológicas mostram que, embora a tecnologia tenha transformado o encontro em um verdadeiro mercado emocional influenciado pela lógica contemporânea do consumo, ela também criou ambientes digitais onde identidades historicamente marginalizadas podem se encontrar com maior segurança. Em muitos contextos sociais pouco inclusivos, os aplicativos permitiram que pessoas superassem a invisibilidade, reduzissem o risco de rejeição ou hostilidade em espaços públicos e construíssem comunidades de pertencimento. Nesse sentido, a plataforma não é apenas uma ferramenta para flertar - mas também um dispositivo social que torna visível o que antes permanecia escondido.

Por fim, há um aspecto psicológico frequentemente subestimado, mas decisivo: a natureza assíncrona da comunicação digital. Nas mensagens online podemos pensar, apagar, modificar, reescrever e esperar o momento ideal para responder. Essa dinâmica cria um espaço estratégico que simplesmente não existe na interação face a face. E é justamente nesse espaço que a imaginação entra em ação. Com apenas fragmentos de informação - algumas fotos, poucas linhas de biografia e algumas mensagens - a mente tende a preencher os vazios com suas próprias expectativas. Construímos mentalmente uma versão ideal da outra pessoa, alguém que parece corresponder perfeitamente aos nossos desejos justamente porque a tela nos permite ignorar a complexidade do real.

Quando chega o primeiro encontro presencial, essa imagem inevitavelmente é colocada à prova. Às vezes a magia continua. Outras vezes descobrimos que o príncipe encantado - ou a princesa perfeita - funcionava melhor em formato JPEG. E assim, apesar de algoritmos sofisticados, interfaces elegantes e da mercantilização dos sentimentos - típica do capitalismo emocional contemporâneo - o motor que leva milhões de pessoas a deslizar perfis permanece surpreendentemente antigo. É o mesmo impulso que move os seres humanos há milênios: a necessidade profunda, visceral e irreduzível de intimidade e conexão.

Os aplicativos são apenas o cenário mais recente de uma busca milenar - um teatro digital onde encenamos esperanças, curiosidade e uma dose inevitável de solidão. Talvez, enquanto fazemos o próximo deslizar, a pergunta mais interessante não seja sobre o filtro perfeito ou a bio mais brilhante. Talvez seja algo muito mais simples - e muito mais difícil: a qualidade da nossa presença. Porque por trás de cada perfil, de cada foto perfeitamente iluminada, e de cada frase espirituosa, permanece suspensa a pergunta que realmente define nossa experiência humana: quem está do outro lado disposto a me encontrar de verdade?

version in english 

Beyond the swipe: uncomfortable and fascinating truths about love in the age of apps

Column - Before the Mirror by Antonello Iona

Beyond the swipe lies a curious territory – somewhere between sociology, psychology, and a touch of digital romantic comedy. It almost always begins the same way: a pause, the blue glow of a smartphone lighting the face, and that gesture that has already become nearly automatic – the thumb sliding to the right or to the left.

Over the past twenty years, that now-familiar movement has rewritten the coordinates of our emotional geography. Encounters no longer take place only in physical locations: the counter of a bar, the desk of an office, a circle of friends, but also in the imperceptible and abstract spaces of silicon and algorithms.

And yet the revolution concerns not only the place where people meet; it has profoundly transformed the very substance of relationships and the perception we have of ourselves. In an era of hyperconnection, we live a fascinating paradox: the technology that promises to bring us closer often seems to make genuine human connection more elusive. Thus, as we swipe through profiles as if they were chapters of an endless novel, the question remains: what does it really mean to look beyond the screen?

To understand this transformation, some social analysts turn to the idea of “liquid love”, a concept used to describe the emotional condition of modernity. Instead of solid and stable bonds – typical of other eras – contemporary relationships tend to be more fluid, mobile, and reversible. Dating applications seem to represent this dynamic perfectly: they offer the speed of connection, but also the comfort of immediate disconnection.

Other sociological analyses suggest that modernity has expanded our emotional freedom while, at the same time, increasing the instability of bonds. We desire closeness, yet we fear dependence and the loss of autonomy.

Within this scenario emerges another observation frequently found in research on contemporary relationships: today many bonds rely less on external structures – such as family, religion, or social conventions – and more on the constant negotiation between autonomous individuals. Thus, from the relatively predictable dimension of traditional encounters – based on social proximity, shared habits, and circles of familiarity – we have moved into a universe of practically infinite possibilities that applications make accessible. An enormous freedom, almost vertiginous. But also a freedom that carries with it a silent anxiety: the emotional pendulum constantly oscillates between the deep desire for intimacy and the fear that a commitment too serious might limit our independence. In other words, we want someone by our side, but with the “unmatch” option always within reach.

There is also another truth – less romantic and perhaps more honest: often we open a dating app not to find someone, but to search for ourselves in the reflection of another person’s gaze. The search for partners can easily become a form of personal validation. Digital platforms often function as systems of micro-rewards: every like, every match, and every notification activates small mechanisms of gratification that reinforce our perception of social visibility. In this context, the match ceases to be merely the beginning of a possible encounter, and becomes symbolic fuel for self-esteem. The app ends up functioning as a sort of waiting room for the ego, where we seek small confirmations of our attractiveness.

It is no coincidence that many users open the app with the same curiosity with which one checks the weather forecast – not because there is necessarily a concrete interest in what is happening outside, but to sense how one’s self-esteem is doing that day. The profile on a dating app itself is at once a mirror of the self and an operation in personal marketing: carefully selected photos, an intriguing bio, and curated interests designed to appear interesting within a few seconds. In essence, each person becomes the creative director of their own digital identity. And if in real life we are complex, contradictory, and full of nuances, in the profile we become an elegant and compact version of ourselves – a kind of cinematic trailer of our own personality.

The famous phrase by Andy Warhol in the late 1960s comes to mind: “In the future, everyone will be famous for 15 minutes.” Only that in 2026 those minutes have become seconds. Then comes the most seductive promise of the apps: abundance. A potentially infinite catalogue of possible partners, all just a few centimeters from the thumb. But precisely this abundance can turn into a trap.

Several studies in decision psychology show that when options multiply too much, our capacity to choose diminishes and satisfaction with the final choice tends to decline. In the universe of online dating, this translates into a subtle but persistent sensation: the impression that, just after the next swipe, there might be an even better profile. It is the classic scenario of the infinite buffet: faced with a hundred desserts we end up tasting many, and truly appreciating only a few. The result can be a form of permanent dissatisfaction that makes it more difficult to invest emotionally in the person in front of us and turns human encounters into a continuous navigation among potentially superior possibilities.

Still, it would be a mistake to reduce dating applications to mere machines of contemporary narcissism. For many people – especially within LGBTQ+ communities – these platforms have represented something far more important: a space of recognition and freedom. Several sociological analyses show that although technology has transformed encounters into a genuine emotional marketplace influenced by the contemporary logic of consumption, it has also created digital environments where historically marginalized identities can meet with greater safety. In many less inclusive social contexts, apps have allowed people to overcome invisibility, reduce the risk of rejection or hostility in public spaces, and build communities of belonging. In this sense, the platform is not merely a tool for flirting – but also a social device that makes visible what once remained hidden.

Finally, there is a psychological aspect often underestimated but decisive: the asynchronous nature of digital communication. In online messages we can think, delete, modify, rewrite, and wait for the ideal moment to respond. This dynamic creates a strategic space that simply does not exist in face-to-face interaction. And it is precisely in this space that imagination comes into play. With only fragments of information – a few photos, a handful of lines in a biography, and some messages – the mind tends to fill the gaps with its own expectations. We mentally construct an ideal version of the other person, someone who seems to correspond perfectly to our desires precisely because the screen allows us to ignore the complexity of reality.

When the first in-person meeting arrives, that image is inevitably put to the test. Sometimes the magic continues. Other times we discover that the charming prince – or the perfect princess – worked better in JPEG format. And so, despite sophisticated algorithms, elegant interfaces, and the commodification of feelings – typical of contemporary emotional capitalism – the engine that leads millions of people to swipe profiles remains surprisingly ancient. It is the same impulse that has moved human beings for millennia: the deep, visceral, and irreducible need for intimacy and connection.

The apps are merely the most recent setting of a millennial search – a digital theater where we stage hopes, curiosity, and an inevitable dose of loneliness. Perhaps, as we make the next swipe, the most interesting question is not about the perfect filter or the brightest bio. Perhaps it is something far simpler – and far more difficult: the quality of our presence. Because behind every profile, every perfectly lit photo, and every witty sentence, there remains suspended the question that truly defines our human experience: who on the other side is willing to truly meet me?

texto: Antonello Iona

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