Sem Ordem, Sem Progresso

É discrepante a diferença na vivência de um brasileiro no Brasil, em se tratando de apoio e reconhecimento - sobretudo profissional - e, o mesmo indivíduo na Europa.

No Brasil, se você não for uma pessoa branca e/ou dentro do padrão de beleza estipulado pela sociedade, ou não aparentar um nível social e material aceitável, a lista burocrática de provas de que você é capaz daquilo que está oferecendo como pessoa e profissional, é muito grande. 

Além das características já citadas, você precisa de inúmeras formações escolares e acadêmicas - de preferência em instituições de grife -; passagem por empresas ou projetos de grande notoriedade; um mailing de amigos e conhecidos relevantes e, hoje, um perfil em alguma rede social com, no mínimo 10 mil seguidores - dependendo de quem você é ou do que você vende. 

Em boa parte da Europa, a experiência pode ser um pouco diferente. O que você fala, como você fala e, principalmente, como se comporta, é bastante considerado quando se trata dos outros decidirem se você sentará, ou não, à  mesa. Óbvio que há exceções. Mas, se você consegue de algum modo traduzir com naturalidade quem você é, ainda que não tenha tido até o dado momento a grande chance da sua vida, as pessoas irão, no mínimo, ouvi-lo e, se for o caso, apostar em você. O resto do caminho é você quem faz. 

A formação cultural, herança de uma identidade eurocentrada, que deságua na desigualdade em um país onde pessoas ainda são escravizadas de várias formas - mental e fisicamente - resulta, infelizmente, na construção de uma sociedade que duvida dos outros porque, antes, duvida de si mesmo. 

No Brasil, somos ensinados desde cedo que a "sorte" só acontece aos personagens de novela ou, no máximo, na casa do vizinho. Crescemos acreditando e romantizando que a vida é um calvário e que, quanto mais você trabalhar arduamente e sofrer, maior será a sua recompensa quando morrer. Sim, além da herança colonial, carregamos também a herança de uma formação religiosa, que, no caso do Brasil, acaba fazendo parte do mesmo conceito.

Em alguns círculos, aprendemos que o suor e a lágrima são mais importantes que os estudos e outros fatores que podem levar alguém ao progresso. E, quando nos deparamos com um indivíduo que conseguiu alcançar a "vida dos sonhos", pensamos em tudo de negativo que possa tê-lo favorecido a chegar onde chegou, menos na possibilidade de que ela esteja ali porque merece e trabalhou por isso. 

É um problema estrutural, de uma nação que, há mais de 500 anos, repassa a ideia de que somos apenas um bando de vira-latas esperando que alguém desista de roer o osso e nos atirar o resto. E, por isso, duvidamos, apontamos, criticamos e julgamos quem foi corajoso ou corajosa o suficiente para percorrer o caminho que nós não ousamos trilhar - ou se quer nos foi ensinado. 

ilustração e texto: Rômulo André Álvares

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